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sexta-feira, setembro 22, 2006

Sicário

O chão é o mesmo. De anteontem, ontem, hoje e amanhã. Será o mesmo, sempre o mesmo. Coisas há que nem toda água do mundo pode apagar. De fato inútil a limpeza ali, embora limpassem sempre. Água-sabão e o mesmo procedimento: aplicada higienização. Limpavam o grosso, por cima, a poeira fina permaneceria presa à retina dos dias vindouros e acumular-se-ia a tantas outras estupefações. As crianças, mais tardar amanhã, já já estariam de volta às suas brincadeiras: vira-vira, amarelinha, fura-pé, pião, pula-corda, elástico. As mocinhas também não tardariam em tomar conta do seu ponto de estratégia certa para paquerarem os moços que, dia-noite-dia, trafegavam abundantes por ali, desocupados. O chão por vezes é o limite da imaginação: linha de fronteira ou fração ideal para construção. O chão é vida, ou não. Nem todos entendiam. Todas as dimensões do chão, alias, vão para além da compreensão. Infinito.

Na manhã mesma do acontecimento tudo acordou tranquilamente, uma tranqüilidade reticente, é bom asseverar, porque no caos do cotidiano pouca, ou coisa alguma, pode ser mais imprecisa que a idéia de tranqüilidade, de calma. A movimentação, antes mesmo do primeiro instante do arrebol, já havia posto de pé a poeira serenamente assentada na madrugada. Vai-e-vem intenso, vem-não-vai pequeno. Naquela manhã mesma, tudo assim ia: fulano com leite, sicrano com o pão, pedinte em mendicância, caminhão de lixo, ambulantes e confusão. Parcos, por ali, entendiam que a ficção, como a inspiração, é contorno para o real. Poucos realizavam.

Um sopro sovina acorreu os cantos, os quatro, daquela viela onde faltava espaço e tudo o mais se espremia numa agonia edificada de bloco e argamassa, concreto (des)armado. Botecos, mercados, padaria, armarinhos, bares, puteiro, tudo numa disputa única por um pedaço do chão que Deus rabiscou como um borrão e onde o diabo gostava de passear e dar outros contornos.

Então um silêncio oco de repente desabou sobre tudo, calou passos, suspendeu respirações e esquentou curiosidades quando três estampidos, cegos, mas exatos, fizeram-se ouvir na balburdia daquele verdadeiro cadinho. Poq-poq-poq. Rápidos e sem sutileza alguma. Em poucos instantes aglutinou-se, sem mesura que pudesse ser empreendida àquela massa, gente por todos os lados. Curiosos de toda estirpe esgueiravam-se entre eles mesmos, por sobre ombros e cabeças, com a única e dedicada intenção de tomar parte do que, de fato, havia ocorrido. Acumularam-se todos a um ou dois metros da entrada do principal mercado da região. Estupefatos uns, resignados outros. Tantos pés, tantas pessoas que não era possível verificar o que ou quem por trás da muralha de ensebados corpos se escondia, ou era escondido. Mas isso não era difícil de imaginar.

Aproximando-se por um outro ângulo, o apreciado ângulo superior, por cima de todas aquelas cabeças, a oportunidade era única e poderia retirar, ou elucidar, qualquer questionamento. Claramente identificável de cima: um homem jovem, não mais que seus trinta anos, negro com evidente diversidade genética, cabelo raspado, camisa branca, calça jeans, caído ao chão de qualquer jeito, mas com as costas para cima, braço esquerdo estirado, o direito por baixo do corpanzil, escondido sob o peito e pernas levemente cruzadas. Assassinato à queima roupa e, era aparente, sem chances de defesa, coisa que mais tarde a informação boca-a-boca tratou de esclarecer: o homem estava sentado à frente de onde tirava o seu sustento como segurança, o mercado, sentado, assim, como que distraído, quando um outro, até aquele momento não identificado pelo população, sorrateiramente aproximou-se por trás e desferiu-lhe os três pipocos alvejadores que lhe retiraram a vida. Rápido assim. Simples, mesmo parecendo complexo.

A movimentação ligeira do povo fora menos por surpresa que por curiosidade. Só para se conhecer o desafortunado da vez. Dali a pouco, como ilustrado em linhas anteriores, todos estariam de volta à rotina. E foi mesmo assim: aos poucos a multidão começou a rarear: mães a arrastar suas pequenas proles pelos braços, putas de volta às suas atividades, ambulantes e suas bugigangas, todos de volta ao desdobrar das horas, como sempre. Por perto, os fofoqueiros e os necrófilos permaneceram a comentar o fato, a velar o corpo inerme escorrer o grosso rubro visgo que outrora preenchera seus vazios e dera-lhe o sustento para a permanência.

Não demorou e uma estranha aproximação ocorreu. Os sacomanos que por ali também se amontoavam espaçadamente, caminharam para próximo do de cujus com um discrição que, no princípio, não fora apreendida pelos comentadores mais próximos, mas que chamou a atenção de quem se afastava. Foram aos poucos chegando, a arrastarem seus trapos e poucos pertences, e pacientemente avançaram sobre o homem caído no chão. O primeiro retirou-lhe o colete e prontamente o colocou sobre as roupas puídas que usava. O outro tratou de desamarrar os cadarços e tirar as botinas estilo militar dos pés do morto e se afastar, naturalmente. Outros vieram e, sucessivamente, despiram o homem outrora alvejado por fulminantes projéteis. Moveram-no como puderam até deixá-lo em completa nudez, foi até possível ao nosso observador mais perspicaz perceber os ferimentos deixados pelas balas, que mais tarde seriam analisados pela perícia para determinar tipo de arma, distância e outras informações que informariam o vindouro processo de investigação criminal.

Estendido no chão de barro batido, morto sem chances de defesa e despido de qualquer proteção mortuária, o defunto esperava ser recolhido, ou não esperava por tudo já ter, por já possuir o que os vivos nascem para perseguir: descanso eterno?! paraíso?! inferno?! Vai saber... A polícia não apareceu e o rabecão demorou a chegar e quando veio, veio sem muita cerimônia: colocou o corpo numa caixa de alumínio ainda suja de algum outro atendimento anterior e partiu, nem mesmo o fato do homem estar nu chamou a atenção do motorista e seu assistente, a cena deveria mesmo ser corriqueira.

No dia seguinte pouco se falou sobre o ocorrido. Pela manhã o dono da banca de jornal solicitou exemplares extras do diário mais populesco na intenção de vender um pouco mais, sabia ele que aquela era uma das situações mais propícias para a venda do periódico, contudo na comunidade os interesses já tinham sido alocados em outras áreas mais urgentes. Assim como o chão, as pessoas do lugar permaneciam as mesmas.

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sexta-feira, setembro 01, 2006

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